E ENTREVISTA

Sacoor Mahomed homenageado com emoções a rodos mas sem lágrimas

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Antigos jogadores e amigos do treinador Sacoor Mahomed homenagearam-no, sábado passado, agora a braços com uma doença que o coloca fora do convívio do futebol e dos seus colegas de profissão. Com emoções a rodos, Sacoorito, que completa 53 anos a 13 de Maio, só não derramou lágrimas porque prometeu que não ia chorar. Afinal, homem que é homem não chora.

A nata de futebol moçambicano instalou-se no bairro de Minkadjuíne, onde se localiza o Campo do Mahafil, na tarde chuvosa do último sábado, a partir da sua direcção máxima, através de Feizal Sidat, presidente da Federação Moçambicana de Futebol e seu “vice”, António Chambal. Grande parte de jogadores que marcaram várias gerações fez-se presente, tomando como exemplo os casos de Ragito, Aly Hassan, Tomás Inguane, Ângelo Matenene, Armando Sá, Sebastião, Daniel, Zé Bernardo, Riquito, Rafael Maposse (Garrincha), Sérgio Faife, Nelinho, entre outros não menos importantes. Treinadores como Uzaras Mahomed, Miguel dos Santos e Gentil Escrivão juntaram-se ao incomum movimento de homenagem a Sacoor Mahomed, ex-treinador de futebol, agora retirado da convivência com o cheiro a balneário devido a uma doença que o apoquenta há mais de cinco anos.

Tratou-se de uma iniciativa tomada por alguns dos ex-pupilos de Sacoorito, curiosamente, à margem dos sindicatos, quer de jogadores, quer de treinadores, ainda que a primeira tenha disfarçado a indiferença através da presença do seu timoneiro, Ângelo Matenene.

 

COMO TUDO COMEÇOU

Um grupo de antigos jogadores, liderado por Américo e que integra ainda Jorgito, Sebastião e Davidinho, ex-jogadores de Saccor Mahomed, reuniu-se no domingo do 23 de Dezembro, no Campo das Manguerias, onde se realizam os torneios do fim do ano, e falou do estado de saúde em que se encontrava o seu “mister”. A ideia que lhes ocorreu foi um gesto de retribuição por tudo quanto o técnico fez por ele, manifestando-se um grande condutor de homens, para além de treinador.

- Hoje, se somos o que somos na sociedade, também o devemos a ele. Então, procurámos envolver mais jogadores que trabalharam com o “mister” no Desportivo e no Mahafil e organizámos este jogo entre o Desportivo e o Mahafil, para além da colecta de algum valor monetário para o ajudar a fazer face às necessidades impostas pelo seu estado de saúde e dizermos-lhe que “estamos juntos”. Graças a Deus, as pessoas aderiram e estamos muito satisfeitos, disse Jorgito.

Familares (esposa, filhos e irmãos) e amigos desta grande figura de futebol juntaram-se ao movimento, evidenciando a emoção que um momento desta estirpe pode provocar a qualquer ser humano.

A ocasião era mesmo própria para que um vale de lágrimas inundasse as instalações do Mahafil, local escolhido para a homenagem a Sacoor Mahomed, antigo jogador e treinador de futebol, com uma carreira iniciada nas escolas da Académica, afirmada no Desportivo de Maputo e terminada no Mahafil, clube da sua família.

 

A CARREIRA DE SACOORITO

Nas escolas do conhecido treinador Perides, Saccorito começou os seus primeiros toques no futebol federado na equipa de iniciados das camadas de formação da Académica, em 1972, quando tinha 12 anos, a convite de Cremildo Gonçalves, que o vira jogar no seu bairro, Chamanculo.  Sacoorito chegou, treinou e gostou. Porque precisava de companhia nas suas idas, teve a ideia de convidar um grande amigo seu para as camadas de formação da colectividade “estudantil”. Trata-se de Sergito, que depois se tornou um grande jogador deste país, brilhando no Costa do Sol e depois no futebol europeu.

Quando passou para juvenis, Sacoorito transferiu-se para o Desportivo de Maputo, onde se foi juntar a Dino, Amade Mogne (este depois se notabilizou no basquetebol), João Lucas, Wilson, Nito (depois foi para o Costa do Sol), entre outros que marcaram gerações no desporto deste país.

Chegado à categoria de sénior, transferiu-se para o Mahafil, clube da sua família, onde fez algumas épocas antes de passar para o Estrela vermelha, a convite de Pinto de Almeida, que também lhe garantia emprego. Mas o Mahafil mexia muito com o coração de Sacoorito, de tal forma que treinava nas manhãs nos “alaranjados” e no fim do dia passava sempre pelo Mahafil, onde se concentravam os seus amigos e familiares, que o acabaram convencendo a voltar a casa. Um dos responsáveis por este regresso foi o recentemente falecido Hamido Nizamo, ex-treinador de natação do Ferroviário de Maputo, mas sendo do Mahafil. Uma mudança que quase custava emprego a Sacoor Mahomed mas, como a sorte acompanha os audazes, conseguiu entender-se com a sua entidade patronal, mantendo-se no posto de trabalho.

Lesões e outros problemas de saúde não permitiram que Sacoor jogasse por muito tempo, tendo sido obrigado a interromper a sua carreira como jogador, com 22 anos, e continuar a fazer parte da família futebolística como treinador, sob tutela de Boaventura Muchanga, antigo guarda-redes do Mahafil. E ele conta como foi a sua primeira experiência.

– Logo nos meus primeiros dias, deram-me um grupo com mais de 100 miúdos para eu fazer a triagem, para ficar apenas com 20 jogadores. Felizmente, o meu dedo de treinador começou ali. Entre os 20 que escolhi, tive a sorte e a felicidade de ter indicado jogadores como o falecido Rui Jonas, Armandinho, Nelito e o falecido Xande, que viriam a tornar-se referências do nosso futebol.

 

A DOENÇA

A vida de Sacoorito começou a entrar em crise há cinco anos. Não se sentindo no seu perfeito estado de saúde, começou por fazer consultas numa unidade sanitária de Nelspruit, na vizinha África do Sul, porque não se conseguia diagnosticar nada aqui, na cidade de Maputo. Apesar da opção por África do Sul, o processo não foi nada fácil, com muitos vaivéns de permeio, até que acabou pedindo que lhe fosse indicado um outro especialista, tendo em conta que Sacoorito sofre de uma insuficiência respiratória crónica. Nessa altura, devido às dificuldades que enfrentava para a respiração, chegou-se até a aventar que sofresse de asma, ou de infecção pulmonar e que, eventualmente, fizessem parte do seu histórico clínico. Entretanto, acabou tendo uma transferência para Pretória e vieram alguns sinais de melhoria, ao mesmo tempo que se começa a notar que os problemas eram, de facto, respiratórios.

Não se notando uma evolução agradável, há dois anos, Sacoor seguiu para Portugal, onde, finalmente, obteve um diagnóstico que agora o ajuda a conviver com o seu estado de saúde. Lá fez exames que nunca antes havia feito e se descobriu que sofria de insuficiência crónica, enfermidade com a qual deverá conviver por toda a sua vida.

Para além de ter de fazer sempre medicação, Sacoor Mahomed é obrigado a não se separar da máscara aerossol, para o fornecimento do oxigénio. Nem tudo isto é obtido de forma fácil. E Sacoorito diz porquê:

– A medicação é cara mas, com a ajuda da família, a vida vai andando. Não estou a trabalhar há mais de um ano, porque não tenho forças para tal. Já não consigo movimentar-me como o fazia até há dois anos. Agora os níveis de captação do oxigénio estão a baixar cada vez mais e isso implica muito repouso. Tenho de ficar mesmo em casa. A minha entidade patronal ajudou até onde foi possível. Estava a trabalhar numa empresa com muitos trabalhadores, o que não se afigurou fácil olhar para situações particulares de cada trabalhador. A minha ligação com a empresa não permitiu que o expediente tivesse sido encaminhado de modo a poder ter alguma pensão, não por culpa de quem quer que seja, mas pela forma como se caracterizou o meu vínculo. Na altura, só me preocupei com o presente, que era muito bom.

 

Sobre a homenagem organizada pelos seus antigos jogadores, amigos e colegas da carreira futebolística, Sacoor Mahomed foi parco em palavras, preferido considerar o momento difícil de descrever.

– Não tenho palavras para descrever este momento com a merecida justiça. Quando nós fazemos um trabalho, no percurso da nossa vida, sem percebermos o real valor que tem, pensamos que estamos simplesmente a cumprir uma missão que nos foi incumbida. Se somos treinadores, pensamos que é para treinarmos os atletas para estarem em condições de irem jogar, sem percebermos que também estamos a formar pessoas, homens, que hoje, já adultos, sabem reconhecer tudo de bom que se fez no passado. Fica-me difícil descrever este momento, na dimensão que ele merece. Nunca esperei por este gesto. Estou a ver jogadores que iniciaram as suas carreiras nos anos 80, treinados por mim e que ainda me têm como seu [mister]. Espero que este gesto não seja apenas para mim, mas para outras pessoas que estejam na mesma situação que eu.

 

Um gesto muito lindo!

– Ana Marques, esposa de Sacoor Mahomed

Ana Marques é a pessoa que tem de envidar todo o seu esforço para que humor e momentos de alegria não faltem no seio da família Mahomed, acompanhando todos os momentos da vida do seu esposo. Visivelmente emocionada, teve muito pouco a dizer à nossa Reportagem.

– Não tenho muito a dizer. Apenas agradeço a todos que estiveram envolvidos neste evento. É um gesto muito lindo, lindo, mesmo!

Sobre o dia-a-dia de Sacoor Mahomed, Ana Marques disse:

– Temos estado a lutar todos os dias para que a vida não se torne bastante pesada, tanto para ele, como para nós. Temos tido muito apoio de toda a família e, com base nisso, conseguimos ultrapassar todos os obstáculo que nos aparecem.

 

Os sindicatos devem-se

 fazer mais presentes

 

– Feizal Sidat, presidente da FMF

Feizal Sidat, presidente da Federação Moçambicana de Futebol, juntou-se ao movimento e prestou a sua homenagem a Sacoor Mahomed, contribuindo com um valor monetário para o homenageado. Falando ao nosso semanário sobre o evento, Sidat disse:

– É uma iniciativa é bem-vinda e, acima de tudo, vale pelo facto de se realizar com a pessoa ainda em vida, contrariando o habitual, que tem sido a prestação de homenagens a título póstumo. É um gesto bastante louvável. Há muitos outros “Sacoores” que também merecem estas homenagens, como Joaquim João e outros mais, para que a nova geração tenha conhecimento de grandes homens que passaram pelo futebol deste país.

Convidado a fazer comentário sobre o “silêncio” dos sindicatos de jogadores e de treinadores, o presidente da Federação Moçambicana de Futebol teceu o seguinte comentário:

– Penso que poderá ser uma lição para estas entidades. Depois desta cerimónia, penso que se poderão reunir e procurar ver o que fazer no futuro. O sindicato de jogadores deve-se fazer mais presente.

 

O homenageado ganhou

perto de 17 mil meticais e 200 rands

A homenagem a Sacoor Mahomed consistiu na organização de um jogo de futebol entre os veteranos do Mahafil e do Desportivo, clubes com os quais o ex-treinador se confunde. A partida foi vivida com bastante interesse, com diferentes gerações a deliciarem-se com o reencontro de antigas vedetas.

Com o Mahafil a ser orientado por Uzaras Mahomed e Desportivo dirigido pela dupla Miguel dos Santo/Gentil Escrivão, ganhou a primeira equipa por 4-3. Depois de os “alvi-negros” terem estado em vantagem durante largo período do jogo, os pupilos de Uzaras protagonizaram uma reviravolta a cinco minutos do fim, perante a incredulidade de Miguel dos Santos e Gentil Escrivão. O resultado não contava mas, quando não se gosta de perder, nem mesmo em jogos a feijões…

Enquanto a partida decorria, uma subcomissão ia fazendo a recolha de contribuições monetárias, para o valor ser entregue ao homenageado, no final da cerimónia. A responsabilidade coube a Sebastião, anunciando a colecta de 16.900,00MT e 200 rands.

Recebendo o valor e um diploma de honra, Sacoor agradeceu o gesto dizendo:

– Muito obrigado, meus amigos, mas… não vou chorar!

 

César Langa

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Fotos de Jerónimo Muianga

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