Tenho o azar de não receber

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O conceituado treinador Gentil Escrivão aceitou abrir-nos o seu livro para falar da sua carreira, cujo início remonta à década de 80. Entre altos e baixos, acredita num futuro risonho e garante que um dia voltará ao Moçambola, isso se os clubes apostarem na prata da casa, tendo em conta a entrada massiva de treinadores estrangeiros no nosso país. Entretanto, Gentil revelou-nos a sua maior mágoa nos últimos tempos. Os salários vêm quando vêm.

Desde 1982 que Gentil Escrivão é treinador de futebol, uma carreira marcada por várias glórias, uma vez que conseguiu formar vários jogadores de qualidade inquestionável e com um talento de encher o olho, tal é o caso do antigo capitão dos “Mambas”, Manuel Bucuane (Tico-Tico), que no ano passado decidiu colocar um ponto final na sua carreira, sendo que agora é patrono de uma escola de formação de novos talentos denominada Escolinha do Tico. O percurso profissional deste grande homem do futebol moçambicano não deixa margem de dúvida a ninguém no tocante à sua qualidade, e sobretudo do seu irrefutável conhecimento do nosso futebol, que nos dias que correm, a passos de camaleão e de forma tímida, vai-se desenvolvendo pouco.

No Desportivo do Maputo, Gentil Escrivão treinou quase todos os escalões de formação, onde juntamente com outro treinador de reconhecido mérito, neste caso Euroflin da Graça, conseguiu levar a bom porto o projecto do clube, que passava por tornar esta colectividade numa referência obrigatória a nível de formação de novos talentos, o que se acabou efectivando. E dada a sua dedicação e a sua competência, mereceu confiança para treinar a equipa principal do Desportivo, mas primeiro como adjunto e só depois foi técnico principal, e mais do que isso mereceu a confiança da Federação Moçambicana de Futebol (FMF) para o cargo de selecionador nacional dos sub-20 e 17, sem contar com as suas várias passagens pelas equipas do centro e norte do país, sendo que o último clube a treinar fora de Maputo foi o FC de Lichinga em 2010, por sinal o último clube que treinou a nível do Moçambola.

Cansado do barulho do futebol, e como forma de tomar fôlego, em 2008 decidiu observar um interregno para descansar, tendo ficado uma época longe dos campos. O período em que esteve no defeso serviu para fazer uma reflexão em relação aos seus projectos e no ano seguinte regressou pela porta do 1º de Maio, equipa que milita no campeonato da cidade, de onde viria a sair para tentar a sorte no FC de Lichinga, onde trabalhou durante uma época até que terminasse o vínculo contratual com aquele emblema da cidade mais fresca do país.

 

FUI AO MG A CONVITE DO

 PRESIDENDE DO CLUBE

Depois de em 2011 ter ficado sem clube, nos meados do ano passado Gentil acabou recebendo um convite do MG FC, clube com uma curta história no panorama futebolístico nacional, mas que a todo custo tenta afirmar-se, até porque não falta a vontade por parte do seu patrono. A este emblema chegou numa altura em que se disputava a segunda volta do Campeonato Provincial de Maputo, em substituição do português Alexandre Cepeda, actual director técnico do FC do Chibuto, que rescindiu o contrato com aquele emblema alegadamente por incumprimento no pagamento dos seus honorários por parte do dirigente máximo daquele clube.

O seu primeiro teste nesta equipa foi diante do Desportivo da Matola na terceira jornada da segunda volta do campeonato, o que não foi fácil, visto que só teve o seu contacto com os jogadores numa sexta-feira, faltando um dia para o jogo e com a agravante de não conhecer o valor dos jogadores, mas acabou por se sair melhor porquanto conseguiu levar a melhor no embate, vencendo a partida.

Nessa odisseia conseguiu dar continuidade ao trabalho iniciado pelo português e, mais do que isso, cumpriu com o objectivo traçado no início da época, que passava por ganhar o campeonato, até que veio o mediático caso dos quatro estrangeiros que não obtinham as respectivas cartas internacionais, o que fez com que o MG perdesse o campeonato na secretaria a favor do Djuba FC.

Em relação ao plantel e as próprias condições de trabalho, o conceituado treinador diz ter encontrado uma equipa recheada de jovens, muitos dos quais sem experiência, uma vez que jogavam pela primeira vez ao mais alto nível. A maioria vinha de torneios recreativos e estava ainda à procura de espaço para se afirmar. Com muito trabalho psicológico, tais jovens acabaram por engrenar na sua filosofia de jogo. Já no concernente à situação dos quatro nigerianos que não apresentavam as respectivas cartas internacionais, Gentil afirma que, quando chegou ao clube, desconhecia o assunto. Só depois é que teve conhecimento quando o caso veio à ribalta.

De acordo com o nosso interlocutor, muitas coisas falharam no MG na época passada devido à falta de experiência por parte dos dirigentes do clube, considerando que vezes sem conta havia falta de comunicação institucional por parte do corpo directivo, o que de certa forma embaraçava sobremaneira o funcionamento do clube. Porém, reconhece a abnegação do presidente da equipa na criação de todas as condições de trabalho para os jogadores e para a respectiva equipa técnica.

SÓ CONTINUO SE ME PAGAREM

O SALÁRIO EM ATRASO

Depois de cumprir cabalmente com o aprazado na época passada, o patrono do FC MG mostra-se interessado em ter Gentil Escrivão no comando técnico da equipa para dar continuidade ao projecto, mas o técnico vinca que só poderá continuar no clube caso sejam satisfeitas as suas inquietações. Mesmo reconhecendo a parte boa do presidente do clube, Gentil não conseguiu escamotear a sua insatisfação perante a nossa equipa de reportagem, a qual está relacionada com o atraso no pagamento dos seus ordenados.

Já lá se vão quatro meses em que não recebe o seu salário, isto porque o presidente do MG, sabe-se lá por que cargas-d’água, ainda não o fez, uma situação que deixa o técnico em apuros e numa crise sem precedentes, uma vez que é chefe de família e as contas de água e luz mensalmente batem à sua porta. Por enquanto aguarda desesperadamente por uma luz no fundo do túnel, embora não se vislumbre o tal dia em que o fruto do seu suor irá chegar meritoriamente às suas mãos.

Neste momento, o nosso entrevistado aguarda pelo regresso do presidente ao solo pátrio, tendo em conta que ele se encontra na diáspora a tratar de negócios pessoais, para colocar à mesa as suas preocupações. Do rol das suas inquietações constam a questão salarial, a organização do clube e tem como umas das suas exigências para a sua continuidade no clube a necessidade de haver um diálogo permanente entre a direcção e a equipa técnica, um elemento que na época passada foi literalmente preterido.

Numa outra abordagem, o nosso entrevistado lamentou o facto de a equipa ter perdido quatro jogadores para o FC do Chibuto, curiosamente os quatro nigerianos que foram suspensos no ano passado por não apresentarem as cartas internacionais, o que na sua opinião teria sido evitado se houvesse o tal diálogo permanente de que é apologista.

- Só vou continuar no MG se me pagarem os quatro meses de salário que me devem, porque neste momento estou um tanto ou quanto pendurado. Estou numa situação desastrosa. Eu gostaria de abraçar ainda mais este projecto do MG, mas tudo depende da conversa que mantivermos com o presidente assim que ele regressar do estrangeiro.

Nos últimos anos em todos clubes por onde eu passei sempre tive esse azar de não serem pagos os meus ordenados. Foi assim no 1º de Maio e no FC de Lichinga, até hoje estão a dever-me salários. O homem quando sai de casa diz que vai trabalhar e quando chega o fim do mês tem de trazer salário. Quando não traz algo, isso tem de ser revisto.

 

SOBRE A DESCIDA DO DESPORTIVO

Gentil apela à união da família “alvi-negra”

Convidado a tecer algumas considerações em relação à descida do Desportivo para a segunda divisão, visto que a sua vida de técnico se confunde com o Desportivo, Gentil foi cauteloso na sua abordagem, eximindo-se de tocar em certos assuntos sob pena de ser mal entendido, mas deixando a nu o seu descontentamento pelo sucedido. Afirmou que essa situação aconteceu porque o Desportivo não conseguiu ser regular durante o Moçambola. Para que a equipa regresse logo à primeira divisão, o técnico apela à união da família “alvi-negra”.

- Não sou a pessoa indicada para falar do Desportivo porque eu saí de lá em 2007. De lá para cá acompanhava tudo à distância, pelo que não posso falar algo com propriedade em relação a esse assunto. Cabe às próprias pessoas que estão lá explicarem o que é que aconteceu. Espero que o Desportivo se reorganize e que haja união na família “alvi-negra” para que no próximo ano consiga regressar ao Moçambola.

 

EM DETRIMENTO DOS TREINADORESNACIONAIS

Clubes apostam nos estrangeiros

O conceituado treinador Gentil Escrivão mostra-se agastado pela forma como os treinadores nacionais são tratados pelos clubes do país, embora reconheça que existe falta de união por parte desta classe, visto que, na sua opinião, passa-se a vida a injuriar ao invés de defender o bem comum. Vai mais longe o afirmar que o Sindicato Nacional dos Treinadores (SNT) nada tem feito no sentido de inverter o cenário. Diz ainda que não tem nada contra os treinadores estrangeiros, uma vez que eles vêm transmitir uma certa experiência, mas lamenta o facto de o país formar treinadores anualmente mas que ao fim e ao cabo são desvalorizados.

- Não se justifica que neste momento haja quatro equipas que precisam de treinadores, quando existem muitos treinadores na praça, que estão desempregados, a maioria dos quais com títulos ganhos em grandes clubes. O treinador moçambicano tem vontade de trabalhar mas não lhe é dado espaço para desenvolver o seu conhecimento, e quando é assim sempre iremos importar treinadores de qualidade dúbia para o país.

 

 

Ibraimo Daniel

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